TERRENCE MALICK: NO CAMINHO DA MISTIFICAÇÃO DESDE “TERRA DE NINGUÉM” ATÉ “A ARVORE DA VIDA” – PEÇA EM CINCO ATOS – IV – JULIO CABRERA

ATO IV. The tree of life (A árvore da vida, 2011). O moralismo consumado. “A árvore da vida” consuma plenamente este processo de exteriorização do humano, de construção metafísica do mal, e, para piorar as coisas, introduzindo uma chocante mistificação da Vida num viés salvador e redentor. Aqui as perguntas metafísicas se tornam apelativas e excessivas, asfixiantes em seu misterioso sussurrar, como se fossem profundas revelações. Já na citação inicial de Jô se culpa ao humano por não ter estado onde devia: “Onde estavas tu quando eu fundava a terra…quando as estrelas produziam harmonias e os anjos gritavam de alegria?”. A vida é apresentada como uma grande festa da qual os humanos não participaram, mas na qual se supõe deveriam estar; este tom sentencioso perpassa o filme todo, acompanhado por música de sonoridades sagradas.

“Fui falsa contigo?”, perguntando pelo sentido da morte do filho, supondo que deva havê-lo; “Senhor, por quê? Onde estavas?”, como se um motivo devesse existir; “Tu sabias?”, “Que somos para ti?”, “Responde-me”, insinuando que além do sofrimento exista algo que escute e forneça respostas (quais? Responder a quê?). Estas perguntas supõem que a vida deva significar algo transcendente, mas ao mesmo tempo manifesto nela; que ela deva ser expiação e consumação.

Na história da filosofia européia, desde Hesíodo até Schopenhauer, passando por Plotino, Dionísio Areopagita e Santo Agostinho, a vida foi sempre apresentada como coisa sombria e desolada, desprezada em benefício de uma outra vida melhor; no limiar do século XIX para o XX, Nietzsche consegue reverter as coisas: denegrir totalmente qualquer transcendência e passar a valorizar a Vida, com forte tendência a sacralizá-la, a transformar a vida mesma em objeto de adoração. Apesar do filme ostentar uma certa religiosidade, trata-se, na verdade, de uma religiosidade da vida: Malick deixou-se envenenar por Nietzsche. A vida agreste e sublime dos anos 70 virou uma luminosa deidade metafísica.

Mas o momento apontado por Jô jamais existiu; se houve um Deus criador, ele já criou a terra sem nenhuma harmonia nem anjos nem alegria ativa; os humanos herdamos tudo o sombrio e ainda ficamos com as culpas. É fácil para Jô inocentar Deus dizendo que chegamos tarde para a festa. Fomos jogados num mundo já em funcionamento, cheio de sofrimentos e de tédio, de alegrias forçadas, um mundo no qual forçosamente pecamos simplesmente por querer viver. Parece injusto por parte de Jô dizer agora que eu sou culpado de não estar onde devia. Na verdade, este não é um mundo muito bom que nós  estragamos, mas um mundo muito ruim que somos obrigados a tentar melhorar o tempo todo. (Por isso, a única pérola deste filme pouco suportável, no meio de tanto canto sacro e sussurro mistificador, é a descrição da infância infernal de Jack sofrendo cada passo a assimetria do seu nascimento, entre um pai dictador e uma mãe que voa; Jack, interpretado pelo pequeno Hunter McCracken, a melhor interpretação do filme).

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